P. Manuel Jerónimo Nunes

50.º Aniversário Sacerdotal

de

Padre Manuel Jerónimo Nunes

 

Memórias soltas


 

Na minha ordenação presbiteral a 1.3.1969 escolhi como lema uma frase do Presbiterorum Ordinis, nº 2: Os Presbíteros recebem a graça de serem ministros de Cristo entre as nações para que elas se tornem oblação agradável”.

Ao celebrar os 25 anos, o meu lema era o da Igreja no Brasil: “Evangelizar com renovado ardor missionário a partir da opção preferencial pelos pobres”.

Ao celebrar os 50 anos de padre, com as capacidades a diminuir, volto a uma frase que sempre questionou a minha vida: Rom 12, 1-2: oferecer a vida, renovar a mente, não ser formatado por este mundo, mas discernir qual é a vontade de Deus.

Agradeço a todos, a Deus, à família, aos amigos e às pessoas que em tantos lugares me acolheram com hospitalidade, ajudando-me a ser padre.

Como nunca vou escrever memórias, reparto com os amigos uns pedaços de memória que o computador guardou.

 

Valadares, 1.3.2019

Jerónimo Nunes

 

1. Entrevista ao Padre Jerónimo


Há dez anos fui entrevistado por duas jovens estudantes: Diana Salgado e Sofia Amaral. Foi um exercício escolar. Aproveito esse material para dar a conhecer um pouco da minha vida repartida por muitos lugares. Fiz uma revisão, sem tirar o tom coloquial.


- Tente pensar na sua vida como se fosse um livro global e com partes (capítulos), ou seja, como uma sequência da sua vida.

- Que partes é que identifica que pudessem ser capítulos?

- Se tivesse que dar um nome a esses capítulos que nome tinham? Faça uma pequena descrição e tente encontrar uma transição de um capítulo para o outro?

 

Demoura – Santa Ana da Azinha


José Nunes e Maria José Gonçalves

 

A minha infância. Nasci na Demoura, freguesia de Santa Ana da Azinha, Guarda. Nasci em casa, criei-me debaixo de um castanheiro. Aos 19 meses caí num caldeirão de água quente. Queimado, só fiquei um dia no hospital. A minha mãe não queria que eu morresse no hospital. Levou-me para casa onde me curaram com amor e conseguiram salvar-me. Filho de lavrador, com seis anos guardava as vacas e aos dez fui para o seminário, onde me sentia acanhado, envergonhado. Eu era tímido à beira do pessoal citadino que já sabia muito de catequese. Eu não sabia costumes de convivência da sociedade, eu só sabia viver lá no campo.

 

Estrela Gonçalves Nunes, Elpídio, Maria José Gonçalves, Manuel Jerónimo, José Nunes, Joaquim e Ana-Guarda, 1965


Era tímido, mas tinha boas notas. Nos anos do seminário menor (Fundão), convivi no meio de muita gente, trezentos alunos. Não tinha jeito para desporto, nem para cantar, nem dançar, nem para… tinha boas notas e isso me fez conhecido. Foi assim até ao quinto ano.

No quinto ano obrigaram-me a fazer um discurso e decorar, mas eu não consegui falar nada, eu sabia-o de cor, tinha escrito, mas paralisei na primeira frase e não consegui… e os alunos ficaram sem discurso nesse dia.

 

Seminário Maior da Guarda


Comecei a desenvolver capacidades de convivência já no seminário maior quando entrei nos escuteiros. Tínhamos uma patrulha dos escuteiros, onde, em grupo pequeno, me sentia bem, tínhamos um círculo missionário, equipa de cinema. Como os estudos não me ocupavam muito eu entrava nesses círculos todos. Foi dos quinze aos dezoito anos que aprendi a conhecer o mundo e a viver neste mundo. Aos dezoito já me julgava uma pessoa com capacidades para influenciar o mundo, com uma missão. Eu tinha o meu diretor espiritual onde comecei a contar os meus problemas e resolvi aceitar a vocação, ser padre!

 

Sonhador


Senti que eu devia ser padre, não da Diocese, mas onde fosse mais necessário. Levei dois anos a procurar caminho e a descobrir o mundo. Decidi, com ajuda do Diretor espiritual, sair daquele seminário, consultando o Bispo.

 

 

Encontrei a Sociedade Missionária e entrei no Seminário das Missões, em Cucujães. A Sociedade Missionária era um grupo que tinha vivido o concílio a sério e aprendi muito nas semanas missionárias que el promovia. A Sociedade era muito aberta à dimensão do mundo, mas na formação, ligava a pormenores que me davam cabo da cabeça e ao fim de três meses eu fiquei quase doido, e pedi umas férias. Mas aqui não havia férias. O médico mandou e eu fui passar o natal a casa. Pus uns remédios na cabeça para curar as feridas e voltei com a cabeça curada e com a decisão de aguentar isto por mais dois anos para depois ser missionário.

Ordenei-me aos perto dos 24 anos. Tinha passado quatro anos a pensar em Moçambique mas, resolveram que eu ia para o Brasil, ou melhor, abriram um concurso para quem quisesse ir para o Brasil e eu candidatei-me com mais dois colegas. Achavam que era necessário abrir outro espaço para a Sociedade Missionária, diversificar os campos porque Moçambique podia ser perigoso, por causa do Marxismo.

Fui um dos fundadores da Missão SMBN no Brasil. Aí começa o meu trabalho de criança em missão.

 

Herói do Sertão


Esse é o nome que me deram lá… porque fui indicado pelo Bispo para fazer o trabalho rural. Éramos três: João Francisco foi para a juventude, Manuel Bastos para a coordenação da pastoral e para mim ficou o resto, a área rural. Eu era o mais novo, mais paradito e lá fiquei nesse trabalho, e identificava-me bem com isso. Durante o tempo de formação tinha cinco meses de férias, sempre passadas no campo e conhecia bem a JAC (Juventude Agrária Católica), No meio rural sentia-me bem.

 

D. Quirino Adolfo Zchmitz, bispo de Teófilo Otóni que chamou a SMBN para o BRASIL

 

Comecei a fazer um trabalho a nível diocesano de formação de leigos para a celebração dominical: leitores, presidente da celebração, ministros da comunhão. Era uma área com cerca de 30.000 Km2 e em três anos formamos por volta de 500 equipas de celebração para as pessoas terem a celebração dominical sem padre.

Aqui em Portugal chama-se a celebração dominical sem padre, lá chamava-se simplesmente a celebração dominical.

 

Bom Jesus de Poté - Primeira paróquia

 

Nessa altura, ao fim de três anos, entrei em crise. Porque o pessoal sabia celebrar, sabia rezar, até era capaz, com cursos bíblicos, de fazer uma homilia razoável dentro da cultura deles, mas o povo estava a todo a fugir para S. Paulo. Com a emigração, nessa década, a diocese perdeu 100.000 habitantes. Não havia terra para trabalhar, estradas, escolas, serviço de saúde, então o povo foi atrás da industrialização nas grandes cidades.

Eu percebi que nós cristãos que rezávamos e líamos a bíblia precisávamos de um compromisso, e procurei um método, indicaram-me a Animação dos Cristãos no meio Rural, era a Ação Católica Rural que a revolução de 64 tinha proibido. Mudaram-lhe o nome mas o método continuava o mesmo… Existia em Recife, promovido pelo padre José Sarvat e protegida por D. Dom Hélder Câmara. A animação dos cristãos no meio rural conseguia fazer a evangelização e enfrentar os problemas do campo à luz da fé.

Esse foi o caminho aberto em 1973, com pouca gente, com grupinhos pequenos e que iam crescendo de forma sustentável.

 

Miguel e Serafim da Silva Cardoso

 

Depois dois ou três anos nessas caminhadas, começámos a ir a Recife participar nas assembleias nacionais e a tomar contacto com outros grupos de lavradores. Começámos a perceber que havia gente presa. Os amigos de Dom Hélder, de vez em quando um era assassinado, outros iam para a cadeia. Percebemos que esse trabalho era um caminho perigoso, algum de nós podia morrer agricultor ou padre que estivesse a apoiá-los.

Conversámos e concluímos que valia a pena continuarmos o trabalho. Morrer já morria muita gente na nossa região: crianças, pessoas da migração, pobreza absoluta. Mortes inúteis já estavam acontecer, se morresse um de nós para melhorar aquela situação seria como uma semente para uma vida nova. Morrer pelos outros vale a pena. Portanto continuamos.

 

Sílvio e Dirlene


O trabalho cresceu na diocese de Teófilo Otóni e espalhámos pelas dioceses vizinhas. Ao lado, na diocese de Araçuaí, enormes áreas estavam a ser plantadas com eucaliptos e as empresas expulsavam as pessoas da terra para plantarem o eucalipto. Um grupo de leigos austríacos estava a fazer o trabalho de apoio aos lavradores dessas áreas. Terminando o seu voluntariado, alguns foram embora e ficou lá um só jovem, que nos pediu socorro e nós fomos. Ele começou a mostrar-nos o problema e a reunir pessoas e o trabalho avançou.

Em 1975 foi criada no Brasil a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nós ouvimos a notícia e enviámos um colega que começou a participar dessas reuniões da CPT a nível nacional. Eu continuei ligado à ACR até aos anos 80. Em 79 foi criada a CPT no estado de Minas Gerais e a nossa equipa foi convidada a coordenar o trabalho. Serafim da Silva Cardoso, um lavrador, coordenou durante dois anos. Mas depois foi necessário ser um padre a coordenar porque o trabalho era muito. O estado de Minas Gerais é sete vezes maior que Portugal. Eu tive que assumir a coordenação.

 

D. Tomás Balduíno, Presidente da CPT


Durante dez anos eu coordenei a CPT em Minas Gerais. Era um trabalho bonito, e foi nessa altura que eu conheci realmente o sertão. A CPT vai onde há problemas com lavradores e ajuda-os a organizar-se. O meu trabalho foi ajudar a criar equipas em cada diocese. Viajei muito para visitar pessoas que se interessavam pelo assunto, quer fossem ligadas às comunidades eclesiais de base ou aos sindicatos rurais e formávamos a equipa diocesana. Elas, depois, faziam o trabalho.

 

Ivo Poleto e família, fundador da CPT

 

Articulador


Em 1989 entrei num capítulo diferente, em que não era mais o herói do Sertão, porque fui convidado a fazer parte do Secretariado Nacional da CPT. Que nome dar a esse serviço? Talvez articulador.

O trabalho do secretariado era articular, juntar, promover a pastoral da terra em todo o Brasil.

No primeiro ano conheci o Brasil e o serviço a ser feito. No segundo eu era o secretário geral e tinha uma equipa de meia dúzia de pessoas: um sociólogo, um advogado, um jornalista, outro padre, uma freira, e um pastor luterano. Dividíamos o Brasil e cada um articulava dois ou três estados e íamos ajudando as equipas estaduais a organizarem-se. Foi um trabalho que durou de cinco anos, 89 a 94. Era um trabalho de escritório, mas também de muita relação com os problemas dos lavradores e do Brasil. Havia uma ligação forte com a conferência episcopal dos bispos brasileiros. Todos os meses estava numa reunião com outras pastorais e com a conferência porque era um trabalho de Igreja. Mas havia também uma relação com outras igrejas, luterana e evangélicas que participavam no nosso trabalho, um serviço ecuménico.

 

 

Nesse tempo a CPT montou um trabalho muito significativo de pesquisas. Tínhamos umas três ou quatro jovens que recolhiam notícias de todos os estados. Mantínhamos atualizada essa pesquisa sobre os conflitos no campo, a expulsão de lavradores, assassinatos e tentativas de assassinato. Começámos a pesquisa da escravidão no Brasil. Cada ano cerca de 30.000 pessoas eram escravizadas para cortar cana, preparar as fazendas na Amazónia, cortar eucalipto, várias atividades. Conseguimos libertar alguns, outros só sabíamos a notícia, normalmente quando terminavam a safra e eram devolvidos a casa sem receber nada.

Era um trabalho importante porque fez o Brasil tomar consciência dessa marginalização, da violência que havia no campo.

Em 1994 vim a Portugal participar na Assembleia Geral da SMBN. Fui eleito superior geral. Começou outro capítulo, o vagabundo de Deus.

 

 

Diversidade da missão

 

Eleito superior geral da Sociedade Missionária, a tarefa que me cabia era a de coordenar a missão, os cento e trinta missionários que naquela altura estavam em Angola, Moçambique, Zâmbia, Brasil e Portugal.

Foi uma coisa nova, completamente surpresa. Eu tive que estudar as questões da Missão. Eu tinha a experiência de missão no Brasil, mas era preciso aprender a Missão a ser feita noutros espaços.

Estive no Brasil, durante vinte cinco anos, numa missão bem específica: evangelizar os lavradores e ajudá-los a defenderem os seus direitos. Agora era preciso conhecer a África e os meus colegas que lá estavam em Angola, Moçambique e Zâmbia e descobrir a evangelização que faziam.

Nessa altura a minha preocupação maior foi com a formação dos jovens, dos que queriam ser missionários. Nós tínhamos seminaristas em Portugal, Brasil, Angola e estávamos a começar em Moçambique.

A minha preocupação foi criar condições para a formação, ajudando a que a Sociedade Missionária a procurar uma formação tipicamente missionária.

Foram oito anos em que houve tempo para ler e descansar. Tinha mais responsabilidade mas muito menos trabalho do que lá no Brasil.

Ao terminar o primeiro mandato, em 1998, fui levar o primeiro missionário da SMBN ao Japão. O Padre Adelino Ascenso queria evangelizar na Ásia, e esse era o rumo apontado pelo Papa João Paulo II na Redemptoris Missio.

 

 

 

O provocador


O capítulo da animação missionária. Tentei formar, dar uma dimensão missionária aos padres, freiras, religiosas e aos jovens de Portugal. Foi a minha grande preocupação, deixando de lado muitas coisas que eram tradicionalmente feitas pelos meus colegas da animação missionaria.

 

 

Dediquei-me a ajudar os vários segmentos da igreja de Portugal a tomar consciência de que a igreja tem que estar aberta a outros continentes. Nesse aspeto continuei o trabalho começado anos atrás, em 1995 com os Leigos Boa Nova. Fiz um trabalho com seminaristas e padres para os ajudar a fazer uma experiência missionária, nem que fosse pouco tempo, um ou dois meses, outros dois anos. Várias dioceses participaram neste movimento, desde Beja até ao Minho.

 

 

Nas ordens religiosas ajudei algumas a tomar mais consciência da missão. Houve duas que resolveram sair de Portugal, que nunca tinham saído, muito pequenas, mas aventureiras: Criaditas dos Pobres e a Liga das Servas de Jesus. Querem provar a Deus que  ainda têm generosidade para fazer alguma coisa diferente no mundo. As Criaditas foram para o Brasil e as Servas foram para Angola.

 

 

 

Mais um capítulo?


Agora o próximo não sei quando começa, espero que seja rápido, conhecer África, embora já a tenha visitado…

Quando se chega à velhice temos que inventar, procurar uma coisa mais calma, menos ativa, que exija menos. Quando eu tinha 25 até  aos 50 anos, passei muitas noites em autocarros. Viajava à noite e trabalhava de dia. Aos quarenta o meu pé esquerdo começou a inchar. Preciso de um trabalho adaptado à minha capacidade, que me obrigue e desafie a continuar a aprender e a dedicar-me aos outros.

Acho que irei para África realizar o sonho da minha juventude, ser missionário em África e passar lá uma meia dúzia de anos a ajudar os meus colegas mais jovens.

 

 

- Neste primeiro momento queríamos perceber como via a sua vida por capítulos, ver o que provocou cada transição, e o que marca cada transição de um capítulo para outro.


A grande transição que marcou a minha vida foi deixar o seminário diocesano.  Percebi que tinha um lugar no mundo, ser padre missionário, e entrei para a Sociedade Missionária.

Depois vieram mudanças mais normais: ir para o Brasil em vez de ser para África.

Em termos de missão, um momento de crise foi quando sentimos a necessidade de maior compromisso para a transformação da realidade, justiça, direitos humanos e sobretudo quando vi que isso podia levar à morte. Exigiu uma decisão mais profunda, minha e dos meus colegas. Não era capaz de fazer isso sozinho.

Depois as outras mudanças, passar da ACR para a CPT, do trabalho diocesano para o estadual u nacional foram crescimento normal na vida sem exigir mais opções profunda.

Ficar aqui em Portugal foi um desastre. Os meus colegas sabiam que eu não sabia nem entendia nada disto, e alguns nem me conheciam.

Sair daqui quando estou a chegar à reforma, é escolha minha. Um missionário não pode parar muito tempo senão apodrece. Como velho tenho o direito a escolher um trabalho mais tranquilo do que este.

 

- Conte uma história de determinada altura, um momento específico que se destaque por alguma razão, com quem, quando, onde e qual impacto na sua vida.    (o objectivo é ter qualquer coisa que se saliente na sua vida pessoal)

- Há muitos…. Uma coisa que me ajudou muito, foi que, a certa altura, os padres diocesanos brasileiros começaram a dizer que nós que trabalhávamos a nível da diocese mas não entendíamos nada da pastoral, éramos uns teóricos. Então nós, a equipa éramos três, decidimos que íamos ter uma paróquia, íamos procurar um espaço onde pudéssemos fazer um trabalho normal de padre para conhecer a realidade.

As paróquias eram muito grandes, as comunidades é que eram a vida normal onde os cristãos se movimentavam. Havia comunidades onde só se ia a cavalo, não havia estrada para carro. Eles vinham à estrada de alcatrão, a única que havia na diocese. Vinham buscar-nos e nós íamos a cavalo, subindo serra, descendo serra. Chegávamos lá e tomávamos banho, jantávamos…. Os líderes da comunidade vinham conversar connosco, antes, durante e depois do jantar, para nos dizer o que estava a acontecer, o que precisavam. À noite rezávamos terço, dormíamos na sacristia e no dia seguinte estávamos outra vez com o povo.

Houve uma comunidade onde eu aprendi muito. Não havia escola. A maior parte eram analfabetos, alguns sabiam ler mas não sabiam escrever, outros sabiam escrever mas não sabiam ler. Mas era um pessoal muito bom, com um grande coração.

 

 

Um dia dei conta que estavam para vender aquelas terras todas. Havia alguém que estava a chegar e queria comprar terras. E o governo já planeava uma estrada. Então, numa noite, percebi que aquela comunidade estava em perigo. Ninguém tinha documentos da terra, e todos viviam ali há séculos, as terras eram divididas mas ninguém tinha documentos. Então, o fazendeiro comprar aquilo tudo e o povo teria de fugir para a cidade.

Chamei o presidente do sindicato e propus-lhe que arranjasse uma maneira de ajudar aquele pessoal a conseguir documento das terras onde viviam e trabalhavam. Ele conhecia umas senhoras que não gostavam do sindicato mas queriam ajudar os pobres da terra. Foram elas que conseguiram o dinheiro para medir e documentar aquelas terras. Quiseram criar uma associação de lavradores. Não conseguiram porque as mulheres não sabiam fazer uma ata de reunião. Mas os lavradores sentiram-se cidadãos e aprenderam a resistir na terra.  Modificou a vida?

A minha sim. Aprendi a fazer a ligação do trabalho local com o trabalho mais amplo, a nível estadual. Essa ligação era fundamental para a criatividade. Ter os pés no chão dessa comunidade, fez-me vislumbrar métodos para os 700.000 km2 do estado.

Foi uma dinâmica que me ajudou muito na vida: trabalho local e com olhos no horizonte dá fecundidade à vida.

 

 

- Qual o melhor momento e pior momento, e qual impacto desses momentos na sua história?

O melhor momento que deu um gozo muito grande, estava na minha paróquia e recebi um telefonema da organização das terras a nível de Minas Gerais, a pedir para eu ir lá para uma reunião com a direção. Pelo telefone marquei a data que me convinha e no dia certo convidei duas pessoas dos direitos humanos, porque não queria ir sozinho encontrar com esses lobos.

Quando cheguei lá, disseram-me que o maior problema era Cachoeirinha. A Cachoeirinha era uma fazenda de que os lavradores tinham sido expulsos em 1964, portanto há uns quinze anos atrás, mas que nunca desistiram. Essas terras tinham sido dadas para gente muito grande, generais, que queriam tomar conta daquilo.

Durante esses quinze anos os lavradores sempre tentaram e nunca conseguiram aquela terra. Para nós era importante resolver o problema, servia de exemplo para outros lavradores que estavam expulsos e que precisavam de voltar para as suas terras.

Naquele dia, a conversa deles comigo, foi oferecer-me um avião para conhecer  uma terra “boa” que eles queriam dar aos lavradores, para não lhes entregarem as terras donde tinham sido expulsos. Por sinal, naquela noite, os lavradores tinham entrado na fazenda e tinham sido presos. Então, na hora da conversa eu sabia que os lavradores estavam presos e eles ofereciam-me avião para eu ir ver outras terras, bastante longe, a uns duzentos quilómetros da área onde eles viviam. Era uma terra bastante seca, mas eles prometiam tirar água do rio S. Francisco para dar aos lavradores. E eu disse: só aceito o avião para ir tirar os lavradores da cadeia e, depois, se eles quiserem ir lá, eu aceito o avião para ir com eles, mas sozinho eu não vou! Eles disseram que não, para ir tirar os lavradores da cadeia não havia avião.

Uma coisa importante me disseram: a transferência para outra terra tinha sido discutida numa comissão em que estavam representantes da federação dos proprietários da terra, da federação dos trabalhadores e uma da igreja. Eram sete pessoas: três do lado dos trabalhadores, três do lado dos patrões que expulsavam os trabalhadores das terras e o bispo poderia desempatar a votação. Mas o bispo teve medo de decidir, absteve-se e mandou entregar assim ao Sr. Governador: metade a favor da volta dos lavradores para as suas terras em Cachoeirinha, metade contra e uma abstenção. Tudo ficava nas mãos do governador. Eu fiquei com muito mal ao ouvir que o bispo fraquejou daquela maneira.

Saí decidido a ir tirar os lavradores da cadeia de Janaúba. Eram quinhentos e tal quilómetros de distância. À noite eu entrei no “ónibus” para Montes Claros. À chegada, disseram-me que os lavradores já estavam fora da cadeia. Às oito horas da manhã já estavam livres.

Pedi uma reunião com os padres de Montes Claros para lhes contar a história da abstenção do Bispo. Os padres foram ao senhor bispo e pediram-lhe um documento a pedir que o povo de Cachoeirinha volte para as suas terras.

 

Alvimar (Montes Claros) e António (Januária) - CPT Norte de Minas

 

À noite, outra vez de “ónibus”, mais uns quinhentos km de volta ao secretariado da pastoral da terra. Com toda a documentação da fazenda trabalhámos dia e noite, e escrevemos a história de Cachoeirinha que terminava com a carta do bispo de Montes Claros, a pedir que os trabalhadores voltem para sua terra. Trabalhamos dia e noite porque ao terceiro dia havia uma reunião do Governador Tancredo Neves com os lavradores de Cachoeirinha. A carta do bispo tinha que ser entregue ao Sr. Governador pelos próprios interessados. E a decisão foi imediata: “os desapossados de Cachoeirinha voltarão para as suas terras”.

Mais difícil… é difícil dizer.

Talvez o mais difícil foi quando fiz o enterro do primeiro lavrador que morreu nesta causa. Era um homem muito simples, analfabeto que morava lá no meio de uma fazenda, uma comunidade de lavradores muito simples que não tinham escola. Só havia uma jovem que sabia ler, era a  Cida, filha desse lavrador que estudara fora.

A Cida, com onze anos presidia a celebração dominical, fazia as leituras e o pai que não sabia ler estava lá junto com ela, a organizar as coisas. Era ele, aquela família o motor daquela comunidade pobre.

Um fazendeiro quis fazer-se era dono de tudo e resolveu dar-lhe um tiro. Morreu com o jornal da Pastoral da Terra na mão. Ele tinha ido buscar o jornal morreu antes de chegar a casa. Os filhos eram adolescentes, foi um desastre para toda a comunidade, mas resistiram. Depois da morte, o povo não fugiu, não desistiu.

A Cida de Unaí, ainda uma menina, começou a participar em reuniões, encontros e tornou-se líder a nível estadual. Mas, aquele momento, a morte do pai foi uma desgraça para toda a região. Também a mim me abalou bastante.

 

- Um momento de viragem, em que ocorreu uma mudança significativa. Como hoje vê esse momento?

O momento de sair do seminário diocesano foi um processo lento mas decisivo.

O que mudou o rumo da minha vida foi sair da diocese para as missões, foi o momento fundamental! Os outros vieram na mesma lógica. Se ficasse lá na diocese seria professor de latim, teria uma barriga de todo o tamanho, seria um bom abade dedicado a estudar latim. Era o destino que tinham traçado para mim, eu não sabia naquela altura, mas era isso.

Vindo para aqui, eu demorei mais tempo a criar barriga, tive uma criatividade que não teria sido possível noutras circunstâncias.

3º Momento

Pessoas significativas

- Três a Quatro pessoas mais importantes na sua história de vida e qual a relação que tinha com essas pessoas? Que Impacto que essas pessoas deixaram?

Até aos quinze anos, tinha vivido em rebanho no meio de trezentos colegas. Estava a sair de mim, entrei na Patrulha Cegonha. Éramos nove jovens. Nas férias tivemos um acampamento em Penalva do Castelo. Fizemos uma caminhada até Viseu onde eu mostrei a minha capacidade e o chefe da patrulha começou a confiar em mim. Depois ele saiu do seminário, mas esse momento, aquele acampamento foi muito importante para mim, para o desenvolvimento da minha vida, confiança em mim mesmo… Não sei por onde anda,  nunca mais o encontrei, mas para o meu crescimento foi fundamental.

Na ida para o Brasil fomos três, e esses três formamos uma comunidade. Cada um tinha o seu trabalho. O Manuel Bastos era o coordenador da Pastoral diocesana, era o chefe do grupo, o João Francisco trabalhava com a juventude, abrindo o espaço para nós, ao mesmo tempo com mais à vontade. Esse grupo foi muito bom, para mim era o modelo, como diz nos Actos dos Apóstolos, cap.4, 24:32, a comunidade ideal, onde todas as pessoas têm um só coração, uma só alma, onde todos juntos ouvem a palavra de Deus, rezam e ouvem os milagres dos apóstolos, possuíam tudo em comum e eram alegres e isso transparecia. Para mim essa era a equipa.

Essa equipa marcou muito a minha entrada para o Brasil. Éramos três jovens, os superiores confiaram muito em nós, mandaram os três muito jovens, eu tinha acabado de ser ordenado, naquele ano. O bispo também confiou e entregou-nos muitas responsabilidades, nós agarramo-nos uns aos outros, colaborávamos em todos os trabalhos e ficámos amigos para sempre. Infelizmente o Manuel Bastos já faleceu

Para fazer a pastoral rural criámos uma equipa com lavradores. Fizemos um grupo de amigos que confiavam muito uns nos outros e se ajudavam muito: Serafim, Zilá, Jair, Quito, uma meia dúzia de lavradores que formaram equipa de muitos anos. Havia outros colegas, como os padres Domingos, Bruno e Gino que eram companheiros para tudo que desse e viesse. Eram capazes de ir até ao fim na defesa de lavradores, na evangelização.

Mais tarde fiz parte de outras equipas da SMBN. Mas essas foram marcantes.

 

- alguma pessoa que não tenha conhecido directamente e que tenha marcado, influenciado a sua vida?

Eu nunca vi Paulo Freire. Aprendi o método na terceira semana de Brasil, copiando à mão o seu material de alfabetização. Passei vários dias numa paróquia, onde o padre tinha escondido um caderno com o métodos Paulo Freire. Não havia fotocopiadoras. Copiei tudo. Li os livros do Paulo Freire quando eram proibidos no Brasil. Em Portugal também eram proibidos na minha juventude. Ele influenciou muito o meu trabalho, porque o trabalho da animação cristã no meio rural utilizava esse método

Em 75, fiz um curso em Paris, num instituto fundado por ele, mas ele não apareceu lá, mas foi fundamental. Aperfeiçoei o método em Paris.

Houve outras pessoas a nível de bispos e teólogos que influenciaram. Um dia encontrei Gustavo Gutierres, fundador da teologia da libertação foi fundamental. Influenciou a minha vida com o livro Beber no Próprio Poço.

Mais do que todos esses influenciaram-me João XXIII e Paulo VI, com o Vaticano II.

 

4º Momento

Futuro

- O que é que ainda acha que vai acontecer na sua vida? O que espera realizar?

- Como vê a sua vida daqui para a frente?

Quando se chega aos 65 anos, uma pessoa aprende a jogar cartas, a beber mais uns copos…tenho que redescobrir, reencontrar um caminho para a vida, com as capacidades que tenho. As minhas capacidades não são metade de quando eu tinha quarenta anos, a minha capacidade de movimentação, capacidade de reflexão, capacidade de raciocínio, física, concentração, atenção…estão muito menores. A maneira de eu não as perder, é coloca-las em uso, o meu físico, a capacidade de relação, de amor, tenho que me colocar em situações que me seja provocado a viver isso cada vez mais profundamente, já que não posso viver em atividade externa tão grande, como já fiz anteriormente. Esse é o desafio!

A minha proposta é mudar. Eu sempre mudei muito na minha vida, de espaço, de lugar, de método de trabalho…. Agora, o que eu imagino, é ir para a África.

O que eu posso fazer em África? Eu vou tentar… a Igreja depois da paz entrou muito em obras. Durante o tempo de guerra, a Igreja confiou muito nos leigos, na formação que tinha feito foi completamente valorizada, dando aos leigos o exercício de ministérios, evangelizar, coordenar, serem servidores do povo. Depois da paz a Igreja, os padres começaram a ocupar-se de grandes obras, restaurar igrejas, restaurar escolas, investir na educação, nos serviços de saúde, e, o perigo é diminuir os relacionamentos, não haver, não estar tanto à disposição dos leigos, dos líderes para acompanhá-los. Isso é o papel dos mais velhos, esse é o trabalho que eu posso fazer. Eu ainda tenho capacidade de percepção da realidade, mesmo da cultura deles ainda posso aprender muita coisa, e como eu não vou ser mestre, nem nada disso, eu posso sentar-me ao lado deles, estar com eles e ajuda-los a crescer, estando juntamente com eles, dando mais força, ajudando-os a ser livres….

Eu imagino o meu trabalho na linha da lectio divina, ajudar os líderes da igreja a serem capazes de ler mais profundamente a bíblia, a ver a sua cultura à luz de Deus, do Espírito Santo, à luz da bíblia e crescerem no sentido de dar unidade à vida cristã e à vida cultural. Em África existe a dicotomia, entre a cultura tradicional, que ganhou força depois da independência, e o cristianismo que fica como uma capa. Eu penso que o meu papel passaria por aí, ajudar aquele pessoal que trabalha na igreja a crescer como líder, a ler mais profundamente a bíblia, a ler a sua cultura à luz da bíblia, e portanto, ajudá-los a serem mais profundamente cristãos, apóstolos e evangelizadores no seu meio e realizar a tal inculturação. A inculturação tem muito que caminhar na África, são os africanos que têm que a fazer, mas para isso têm que fazer uma releitura da sua cultura e do evangelho, para fazerem uma síntese dos dois. Não sou especialista de bíblia, nem especialista de cultura, mas eu estou habituado a ser divulgador, a ligar pontas…esse trabalho intercultural, acho que é muito produtivo.

É por ai que eu vejo o meu futuro. Quero ter uma vida tranquila, sentado a ouvir os africanos.

 

 

- Qual área ou o aspecto da sua vida que lhe causa stress?

- Morar neste seminário. Com o mesmo trabalho durante quinze anos, isso é… voltar sempre ao mesmo… organizar a festa missionária todos os anos, já não tem piada.

- Perspectiva: formas de resolução dessas áreas de stress?

- Tem que se fazer alguma coisa…, mudar para outro serviço!

 

5º Momento

Ideologia pessoal

- Qual o impacto da religião na sua vida?

Eu não sou muito religioso… (risos) . Uma das coisas que está muito marcada na minha vida, na altura dos meus dezasseis/ dezassete anos, fiz um passeio lá para a Serra da Estrela, de manhã acordamos e fomos rezar, numa área plana com um riozinho de lado…  A minha religião é muito informal, nesse sentido.

Eu sou muito devoto do Santíssimo Sacramento, mas tento estar em relação com Deus através da vida, da natureza. O último ano antes de ser padre, eu tentei não ser padre, queria dedicar-me à evangelização, à transformação deste mundo através o evangelho. Eu achava que os padres perdiam muito tempo em atos religiosos, a fazer batizados, casamentos, essas coisas…, porque isso só vale se antes as pessoas já forem evangelizadas, eu queria dedicar a minha vida à evangelização, ao anúncio de Jesus Cristo, e levar as pessoas a deixarem-se conquistar por Ele. Muitos dias da minha vida, eu passei-os em lugares onde não tinha igreja, rezava com os lavradores lá no campo. O espírito, a espiritualidade para mim é fundamental. Mas não sou muito de repetir esses atos religiosos, devoções não é a minha especialidade, agora que a vida tem que ter espírito, tem que ter alma, isso sim! E eu tento viver, tento viver com os meus fracassos…

 

- Qual a sua posição política?

Politicamente, eu nasci e cresci na ditadura de Salazar. Na minha juventude evidentemente, eu tinha uma visão muito crítica em relação a essas coisas. Como missionário, vivi quinze anos debaixo da ditadura brasileira que oprimia muita gente, que matou muita gente, e eu estava do outro lado.

Fiz muitas vezes trabalhos cujo sentido tinha que ser clandestino, não manifesto para qualquer um que via pelo lado de fora. Nós tentamos fazer um trabalho libertador, libertador a nível pessoal, social e evidentemente que isso não podia aparecer, senão íamos para a cadeia rapidamente e lá se ia o trabalho.

Politicamente sempre estive na defesa dos direitos humanos, dos pequenos, dos pobres, dos lavradores, dos índios…, não podia ser outra coisa. Nunca fiz parte de um partido, embora tivesse muitos amigos que militavam politicamente.

- Qual o valor mais importante da vida humana?

- Agora os valores…, os valores maiores da vida são o Amor, justiça, capacidade de convivência, de valorização dos povos.

Último momento

- Olhe para trás, de tudo o que aconteceu acha que há um sentido global na sua história?

- Sentido global? Se o amor me curou quando eu tinha dezanove meses, serviu para alguma coisa, então o sentido global é, eu ajudar os mais fracos a crescer.

- Se lhe pedíssemos um tema central, linha de conduta da sua história, qual escolheria?

- Acho que… eu assumi na minha vida o papel de padre, padre-pai, de intermediário a andar na corda bamba. Nem sou leigo nem acredito em hierarquias fortes; não sou brasileiro, mas também não sou bem português; eu sempre estive na fronteira, como padre no meio dos lavradores, como português no meio dos índios.

Assumi essa missão de intermediário, de estar ao serviço. Andar na corda bamba, quer dizer…, eu estar muitas vezes no meio de intelectuais, a discutir com sociólogos, com advogados, com padres…, mas com uma visão diferente. Sem ser nada disso, estive sempre em defesa dos lavradores, com a visão deles, para fazer valer a visão deles. Conheci comunistas, às vezes estávamos juntos para defender a justiça, mas sem admitir a ditadura do proletariado e seus métodos…. Os pobres precisam de pessoas que assumam o lado deles, que assumam visão deles para os ajudarem a crescer… Precisam mais de parteiros (como diria Carlos Mesters) que façam brotar as suas potencialidades, do que de assistências sociais que os mantenham como mrginalizados.

…É intermediário, na fronteira, na corda bamba, a promover a Vida onde o Espírito a está gerar.

 

 

2. Como os Maxakali me descobriram

 

Os Maxakali são uma tribo indígena que moram na primeira diocese onde trabalhei -Teófilo Otóni. Visitei-os como turista, comprei-lhes colares, arcos e flexas feitos para turista ver. Mas não conhecia um único nome de pessoa desse povo.

 

 

Em 1979, adoeceu Frei Lauro, o padre dessa região e eu fui substituí-lo. Cada 3 meses visitava os 3 concelhos que formavam a paróquia de Machacalis.

Uma tarde cheguei a Santa Helena e encontrei as pessoas muito preocupadas, com medo.

- Ainda bem que o senhor veio. Os Maxakali estão a preparar-se para invadir Santa Helena. Vai ser uma guerra.

- Porquê? O que é que aconteceu?

- Os índios vieram à feira. Um índio roubou um rádio, a polícia bateu-lhe muito e prendeu-o. No dia seguinte vieram todos e soltaram o índio. Mas ficaram muito revoltados e prepararam a vingança. Uma semana depois eles vieram armados. Mas a polícia e muitas pessoas esperaram-nos no caminho e mataram um índio – o Tiago. Quando vierem de novo será com muitas armas. Toda a gente está com medo. O senhor tem que rezar por nós.

- Está certo. À noite vamos rezar.

 

Enquanto tomava banho e jantava, dei voltas à cabeça para encontrar leituras, oração e pregação que trouxessem paz a Santa Helena. Resolvi rezar a Missa pelo Tiago – o índio assassinado pelo polícia que estava de pé em frente do altar. Santa Helena ficou indignada comigo.

 

- Nunca ouvimos rezar Missa por um índio.

- Mas vós rezais pelos mortos. O que eu fiz foi rezar pelo morto.

 

No dia seguinte foi festa, outra Missa, batismos, muita conversa e algumas bebedeiras. À tarde peguei no carro e saí para outra comunidade Oropa (nome de uma abelha). Ao atravessar o território indígena, um velhote estava no caminho e queria falar comigo.

- O senhor é o Padre? É o padre que rezou pelo Tiago?

- Sim sou o Padre e rezei pelo Tiago.

- Então o padre é nosso amigo. Tem que vir a minha casa. Eu sou o chefe Adolfo.

- O povo de Oropa está à minha espera. Tenho que chegar lá antes do pôr do sol. Amanhã, a esta hora, eu passo aqui de novo e posso ir a casa do chefe.

- Está bem. Amanhã espero-o aqui.

 

 

Claro que eu desci de Oropa mais cedo, ansioso por encontrar o Chefe de novo. Ouvi muito choro, muitas histórias do sofrimento dos Maxakali no meio dos brancos. Fiquei amigo do chefe e da sua família toda. E essa amizade produziu frutos. A guerra com Santa Helena acabou.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) enviou duas missionárias para morarem junto dos índios. Foi o começo duma bela história.

 

* * *

Em 1988, eu morava em Belo Horizonte, a setecentos quilómetros dos Maxakali. Um surto de gripe invadiu o seu território. Fizemos uma campanha nas farmácias e rumamos para lá. De casa em casa fomos distribuindo remédios. À noite chegámos a casa do chefe Capitãozinho. Pedimos licença para dormir dentro do seu território mas ele não permitiu: “A lua ensina o caminho, podem ir embora!”

Cem metros à frente um índio pede desculpa: “a casa está preparada para para dormirem aqui, mas o chefe não vos conhece. É muita pena”.

Deixou as pessoas avançar e ficou a sós comigo e começou a confidenciar: “Estamos felizes em ter aqui o padre. Agora nós sabemos que a terra que nos foi roubada será devolvida.”

Esta intimidade surpreendeu-me e deixou uma enorme dúvida: Porque é que ele tinha de falar isso só comigo, o padre?

Uma coisa é certa: eu fui primeiro padre a ter amizade com os Maxakali. Eu saí daquela área, mas a Igreja de Teófilo Otóni nunca mais deixou de apoiar os índios. No ano 2.000, a profecia realizou-se- O governo entregou a terra aos seus donos originários.

 

 

3. Ouvir dois séculos de Silêncio

 

Havia um problema em Pompéu, numa fazenda onde muitas famílias trabalhavam antigamente. O dono foi expulsando trabalhadores e sobrava só uma família que não aceitou sair. O sindicato defendeu-a e pediu ajuda à CPT. Foram lá o Tiago e a Irmã I. Faltava ir o padre. O carro do Presidente do sindicato levou-me até lá e reunimos na escola.

Ivo, o presidente, abriu a reunião e começou a falar: “Vós tendes uma história de luta. Já resolvestes muitos problemas. Tendes que vos organizar”. O discurso alongou-se e as pessoas estavam caladas. Pedi ao Ivo que lhes desse a oportunidade de falar. Mas elas continuaram caladas e o Ivo recomeçou o seu discurso. À terceira vez, o os minutos de silêncio incomodaram de mais. Levantou-se um velho anémico e falou: “Nós somos índios. Eu fui a Divinópolis fazer o curso para Ministros da Eucaristia e ouvi falar dos Xavante, Bororo, guaranis. Nós também somos índios.”

Perante declaração tão surpreendente, eu ripostei: “Esses são índios do Mato Grosso. Em Minas Gerais só há 4 povos indígenas e estão longe de Pompéu.”

O Ministro da Eucaristia reafirmou solenemente “somos índios” e começou a contar duzentos anos de história. Quando D. João VI veio para o Rio de Janeiro, trouxe nobres amigos a quem entregou terras. Entregou a D. Joaquina todas estas terras de Pompéu até Paracatu. Ela trouxe escravos para trabalharem. Nós morávamos aqui e fomos encarregados de guardar os escravos de D. Joaquina. Os índios que tinham armas e guardavam os escravos não eram batizados. Ainda pode encontrar um velho aí em Pompeu no Bairro do Galinheiro que não é batizado. Porque foi preparado para ser guarda. Os índios eram muitos, mas tiveram de sair daqui. Um grupo vive em Goiás Velho outros foram pra S. Paulo. Toda a terra era nossa. Agora só temos 4 hectares para morarmos.

 

Perguntei:

- Qual é nome do vosso povo?

- Kaxixó – respondeu.

Acrescentei:

- Se vós sois índios, ainda continuais a ser donos da terra. A Constituição garante que terra indígena não pode ser roubada. Índio não perde o direito à terra. Mas agora a vossa terra está ocupada por outras pessoas e plantada com cana de açúcar e eucaliptos. Tendes que lutar para serdes reconhecidos como índios. Porque deixastes de vos chamar índios?

 

- Porque há 200 anos, D. Joaquina proibiu de falarmos que somos índios.

 

O Ivo ficou de queixo caído. Não sabia que os seus amigos eram índios. Um negro casado com índia, proclamou que não sabia que a sua mulher era índia. Um segredo bem guardado quase 200 anos foi revelado ali na minha frente, quando mandei calar o Presidente do Sindicato. Ficámos com os Kaxixó 4 horas: tempo suficiente para uma reunião, uma Missa, um almoço e o reinício de uma história paralisada há seculos.

Voltando a Belo Horizonte, fui a uma livraria comprar o livro sobre D. Joaquina de Pompeu. Sim, ela existiu, no início do século XIX. O livro não fala da existência de índios. Mas é suficiente para esclarecer que as histórias contadas por analfabetos podem ter fundamento e lógica.

Em 1995, quando eu já morava em Lisboa, recebei um mail a dizer que uma antropóloga fora mandada a Pompéu para pesquisar a existência de índios e concluiu que os Kaxixó foram inventados pelo P. Jerónimo. Foi preciso enviar um novo grupo de pesquisadores para tornar oficial que os Kaxixó existem, são um povo e têm direitos de cidadania.

 

 

 

4. Um mês de descobertas em Malema

 

Já lá vão dois meses. O primeiro foi para ver colegas em Maputo, Chibuto, Nampula e Nametil, lugares que já conhecia mas precisava rever (os colegas). O calor era terrível. Nalgum lugar se queimou a borracha de uns sapatos que trouxe. Depois de queimada desfez-se aos poucos. Mas isso passou. Começaram as chuvas e um tempo mais agradável.

 

Fez ontem um mês que cheguei ao centro da Missão, junto com Ronaldo, para formar equipa com o P. José Alexandre e o P. Baltar. Somos 4 nesta casa grande de amplos quartos. Chegámos no mês das férias para os funcionários e as escolas. É também o mês da fome porque há muito trabalho nas machambas e nada para colher.

Como descobri que Janeiro é o mês da fome? Em conversa com o Senhor Valentim, o noivo que baptizei e casei no Chubulo.

 

- Senhor Valentim, hoje é festa grande!

- Não é senhor padre! Não há festa!

- Mas os seus filhos vão reunir-se em sua casa e haverá festa hoje.

- Não, Senhor Padre, festa é em Agosto. Janeiro é o mês da fome, não há dinheiro.

 

É duro o trabalho lá no alto da serra onde ficam as matas e as terras mais produtivas. Todo o produto tem de ser transportado à cabeça, pela serra abaixo. Lá no alto labutam de segunda a sexta. Descem no sábado para ir à catequese e celebrar o Domingo. Depois do almoço de Domingo é hora de subir para defender a machamba dos javalis e recomeçar o trabalho.

Foi assim que descobri os lavradores. Dizem que este distrito é o celeiro da Província. Milho e mais milho, feijão, amendoim. Trabalho duro feito com a enxada macua, bem pequenina, que desce ligeira nas moitas de capim. A fábrica de tabaco está quase parada. Nos anos 90 ainda financiou lavradores para plantarem. Depois entrou novo dono que diminuiu o financiamento e o preço do produto e o pessoal deixou de plantar. No Mutuáli começou a funcionar uma descaroçadeira de algodão. O Governador da Província vai lá visitá-la hoje. Mas por aqui o algodão agora é pouco.

 

A novidade é a escola de Nataleia, que forma os filhos de pequenos agricultores. Dura 3 anos. Passam 15 dias na escola e 15 dias em casa. Na escola estudam todas as disciplinas do secundário, adaptadas ao campo, mais teoria e prática de agricultura. Fazem duas machambas: uma na escola outra nas terras da família. Juntam ciência e tradição. Aprendem com os pais e discutem na escola. Aprendem na escola e discutem com os pais. O objectivo é ajudar esses jovens agricultores a pensar, programar e fazer, a tornarem-se líderes no seu meio em busca dum desenvolvimento integral e sustentável. Vou tentar apoiar esse pessoal.

No próximo mês a vida será mais divertida porque andarei pelas comunidades a celebrar a quaresma. Neste mês foi tudo muito simples. Às 5 horas da madrugada, a luz entra pela janela. Lá fora os pássaros e as enxadas já não param. É hora de levantar, rezar e tomar o mata-bicho. Alguns dias, passo pela escola dos carpinteiros para dar alguma ajuda. Mas o trabalho da manhã é estudar Macua. A tarde é curta. Depois da sesta, algum pequeno serviço e preparar para a Eucaristia das 17,00. É cedo mas é a tradição. Antes das seis já escurece, durante o ano todo. É hora de recolher, jantar, conversa da noite, algum trabalhinho que exija silêncio e… cama, de baixo do mosquiteiro, porque as mosquitas são perigosas.

Certamente que o grande desafio é a evangelização. Tudo está orientado para a catequese. A Igreja ministerial está a ficar reduzida a catequese e culto. Mas sem evangelização a catequese é reboco em parede podre. Só a evangelização muda a vida e dá sentido à catequese posterior. Como se faz isso aqui? Estou a aprender.

 

 

5. Um ano da Graça


Este ano foi Graça. Toda a equipa missionária se empenhou em anunciar Jesus. Preparámos um esquema para o estudo de S. Marcos. Transmitimo-lo a alguns mensageiros de cada paróquia e com a colaboração deles em Macua, levámos a Boa Notícia a 16 zonas de Malema e Nataleia. A exposição dos textos e a sua encenação em grupos abriu alguns corações para Jesus. Dizia uma velhinha, não cristã, mãe do ancião duma comunidade: Falais tão bem de Jesus! Agora entendi que vale a pena ser cristã!

Quase metade dos fins de semana foram dedicados a esse trabalho. Mesmo na ausência do pároco houve uma série de cursos. Não sei se é nova evangelização. Prefiro chamar simplesmente evangelização. Os velhos missionários já evangelizaram muitas pessoas por aqui. Mas é um serviço que tem de ser feito a sério em cada geração. No próximo ano continuaremos com o estudo de S. Lucas. É ele que vai preencher o ano da Fé.

Claro que isso complicou o trabalho normal de sacramentalização. Os últimos 3 meses antes da chuva foram uma corrida para chegar às 25 zonas a batizar e abençoar casamentos. Mesmo assim procurámos perceber melhor a vida das comunidades e fazer chegar o anúncio fundamental. A minha surpresa neste ano foi perceber que as capelas se enchem nos dias de casamentos. Mas, se as visitamos só para fazer a Eucaristia, muitos cristãos ficam em casa… Sei que isso acontece em muitos lugares do mundo. Mas, se o padre vai só uma ou duas vezes por ano e eles não sentem falta deste encontro sacramental, alguma coisa está a falhar.

No entanto, as comunidades estão vivas. Neste ano, quantas comunidades fizeram capela nova! Ainda não fiz as contas mas foram muitas inaugurações. Algumas são bem tradicionais, pau a pique e cobertas de capim. Mas muitas foram melhoradas: tijolos e cobertura de chapas de zinco. Numa sociedade onde o dinheiro é tão escasso, é muito esforço e trabalho comunitário.

Na sede das duas paróquias conseguimos dar um avanço na construção de salas de catequese. Mesmo sabendo que as crianças gostam de catequese de baixo da mangueira, em 2013, nos dias de chuva, os catequistas terão a vida facilitada.

Tentámos iniciar a catequese do crisma nas 3 regiões pastorais. Mas o sucesso não chegou a 50 por cento. Em tempos antigos, o crisma era dado pelo padre, aos adultos, junto com o Batismo. Não havia preparação especial. Moda nova custa a pegar. O senhor Bispo foi só a Nataleia. Vamos tentar de novo em 2013.

O ano da Fé começou praticamente no advento. Fornecemos às comunidades um esquema para estudo dos dois primeiros capítulos de S. Lucas. Rompemos um pouco o esquema das celebrações rotineiras, para introduzirmos o método tradicional africano: ensinar contando histórias. Uma boa parte das comunidades conseguiu estudar a sério as histórias de Lucas, para que os outros ouçam, vejam e percebam a novidade do Deus Criança que vem visitar-nos neste Natal.

No final deste ano tive ainda outra surpresa. O senhor Arcebispo, sensibilizado pelos efeitos colaterais que poderão ter, entre nós, os grandes projetos, resolveu dar vida nova à Comissão Pastoral da Terra e Ecologia. A nossa paróquia foi escolhida para a experiência piloto. A equipa esteve aqui esta semana e demos o pontapé de saída à concessão de títulos de terra em nome das comunidades. Assim ficará mais garantida a posse da terra e os que vierem para a usurpar terão de enfrentar-se com uma comunidade inteira.

Damos graças a Deus pelo que Ele vai gerando nestes corações. Agradecemos aos amigos que colaboraram connosco em orações e dinheiro para este trabalho. Foram muitos. Mas, em termos de organizações não podemos esquecer a ARM, os Leigos Boa Nova, a revista Boa Nova e a Diocese de Lamego que destinou o resultados da quaresma 2012 a Malema e Nametil. Sensibilizou-nos um senhor (pai de um missionário) que, no leito da dor, se lembrou de repartir connosco as suas economias. Chamávamos a isso doente missionário. Que Deus lhe pague a ele e a todos vós pela união connosco e pela solidariedade com este povo.

 

 

7. Vida Facilitada


Prometi estar com os pobres,

E tenho um monte de cidadãos;

Mas, longe do consumismo,

Tenho colesterol normal e tensão aceitável.

Convivendo com o diferente,

O cérebro gira forte, mantém-me vivo:

Vida facilitada e gratuita,

Aqui não se morre, transita-se...

Vida arriscada? Sim

Pelo acolhimento generoso e festivo.

A pé, de carro, de bicicleta, de casquinha,

Desportos radicais, gratuitos e facilitados

O mundo sem portas nem janelas é a minha casa,

Passeio entre irmãos e irmãs que levam minha mochila,

E comigo partilham a comida

Que os filhos não têm.

É preciso dar o salto,

Diz o Zé Maria.

A dificuldade acaba quando decido

Abrir estrada onde não há caminho.

Longe dos belos sermões e dos solenes funerais,

Da pompa dos casamentos e dos andores enfeitados

É o Evangelho essencial, simples e livre como as aves da floresta

Que fecunda a vida, gera comunidade e irriga o coração.

 

21 de Outubro de 2012, Dia Mundial das Missões

 

Nota: o título é palavra do médico, Doutor Isidoro, que ontem nos visitou

 

8. Sorriso de Deus

 

Deus não perdeu a esperança: pequenina estrela brilha no escuro da noite, misterioso sorriso de Deus fora da cidade, no estábulo, entre pobres e animais.

 

Não procureis a Deus acima das nuvens, na paz nascida dos canhões dos impérios. Procurai-O na noite, no silêncio, no interior do coração, na paz dos que nada têm a perder e, na indigência, confiam e esperam.

Se, à sombra do Espírito, Maria concebeu o Verbo, o Sentido, a Luz, o Sorriso de Deus, Hoje eu devo concebê-lo em mim, dar-lhe uma carne, uma tenda para morar, um templo para iluminar. Para todos apareceu o Amor, em mim deve encontrar um coração, vibrante e acolhedor. Calem todos os barulhos, silêncio!

Deus se fez carinho, carente, impotente, braços abertos, choro e apelo. Exige colo e calor, quer lábios de beijar e  bocas de louvor! Deixo cair as máscaras, a solenidade, a sensatez, a grandeza, a ordem imposta, a etiqueta de falsidade. É a ordem: só entram pobres, pequeninos e esperançosos.

Deus se fez humano, vibra o coração divinizado da humanidade. Todas as raças foram iluminadas pela Sombra do Espírito, todo ser pede mãos de carícia e sorrisos de criança, exige paz interior e gestos de veneração. Ajoelho: todas os povos são divinos.

A terra foi invadida, ao homem foi dado novo certificado de qualidade. Cantam os anjos e dançam  as estrelas, os peregrinos lentamente avançam pelos desertos. Cuidado com os velhos fiscais e espiões: A Paz desce do céu e a Justiça irrompe da terra.

Em Belém, casa do Pão, nasce a nova humanidade, na estalagem das estrelas caem as portas feitas para fechar, fabricam-se janelas para abrir. Mãos dadas por um mundo outro: nutrido com Amor incansável e  inadiável contemplação.

 

 

9. A Igreja e os Cachorinhos


Encanta-me aquela passagem evangélica da mulher siro-fenícia que procura Jesus escondido. Parece que Ele andava cansado de discutir com os fariseus as tradições judaicas. Ou precisava de tranquilidade para formar os discípulos  a quem queria entregar a Missão (o seu seminário não tinha muros). O certo é que Jesus se auto-exilou para lá da Galileia, para a região de Tiro e Sídon e se escondeu numa casa. Mas a mulher angustiada descobriu-o e suplicava insistentemente a libertação da filha.

Jesus reagiu sarcástico: não é lícito tirar o pão aos filhos e dá-lo aos cães. Mas a mulher aceitou a provocação e contra-atacou: os cães que ficam debaixo da mesa comem as migalhas que as crianças deixam cair. E Jesus foi obrigado a reconhecer a fé daquela mulher pagã e curar a sua filha (cfr Mt 16, 21-28).

Mesmo trocando palavras duras, Jesus e a mulher entendem-se perfeitamente, colocam-se no mesmo plano. O sarcasmo refere-se aos filhos que não comem nem deixam os cães comer – os fariseus de olho vesgo que vêem o  mundo dividido entre os filhos de Deus (eles mesmos) e os cães desprezíveis e impuros ( os outros povos). Foi no meio destes que Jesus se escondeu, sem medo de ficar impuro. E lá encontrou muita angústia e muita fé capaz de acolher a libertação.

Este texto é uma delícia. Mostra Jesus como judeu mas não amarrado aos preconceitos dos seus compatriotas, com uma missão aparentemente limitada a um pequeno território, mas que se estendia a (para) todos os povos, sobretudo aos que ficavam por baixo da mesa – um Jesus que salta com a maior tranquilidade os muros que dividem a humanidade, sem medo de se contaminar no contacto com pagãos. Diante duma pessoa destas, o diabo tem que fugir.

Às portas do novo milénio, a humanidade continua dividida entre os filhos de mesa farta e a multidão que não tem migalhas. Lá por baixo da mesa há muitas guerras, fome, escravidão, parece que o diabo está autorizado a mandar por lá. Por cima da mesa limpa e bem educada, sobra mais do que se come e, depois, jogam-se as cartas, decidindo os destinos de todos, os de cima e os de baixo.

Os cenários previstos para o novo milénio não são optimistas. É fácil descobrir os sinais de conflitos crescentes em que o alimento será uma das grandes armas porque concentrado nas mãos de poucos. Quase nos convencem que são poucos os filhos de Deus e muitos os amaldiçoados e incapazes de vida civilizada.

É nestes cenários que a atenção de Jesus aos cachorrinhos brilha como um farol na noite. Faz-me sonhar com uma Igreja livre de preconceitos ideológicos, raciais, culturais; com um rosto marcado pela sua encarnação em cada povo e cultura, mas com um coração aberto a todos, pés ligeiros para saltar os muros e mãos ágeis para criar pontes que ultrapassem todas as divisões; uma Igreja que acaba com as dúvidas sobre a evangélica opção pelos pobres, capaz de descobrir e revelar o Cristo que se esconde no meio deles.

Este parece um sonho antigo, de trinta anos atrás. Na realidade é mais antigo, muito mais antigo, mas o concílio deu-lhe muita força. Na minha juventude parecia um sonho realizável. Só que a história não caminha em linha recta e a Igreja também não. Há 20 anos a opção pelos pobres foi considerada um perigo, a tecnologia global reapareceu como o deus salvador e muitos cristãos partiram para a espiritualidades mais soft.

E é a partir da nova situação do mundo e do trabalho que o Espírito vai fazendo dentro e fora da Igreja que o meu sonho juvenil se transforma e se torna mais forte. As pagãs continuarão a bater à porta da Igreja, cada vez com mais força, clamando por libertação delas e dos seus filhos. E o Espírito não vai deixar a Igreja entretida a discutir com fariseus ou fechada numa casa, mas vai enviá-la para os campos e praças (também virtuais, mas sobretudo as outras) onde os pobres expõem as suas chagas, as crianças brincam e os velhos tomam sol.

 

 

10. O meu dia de hoje


5h – Um grupo de homens conversa junto da minha janela. Querem bambus amarelos para fazer o caixão duma criança. O pequeno será sepultado na beira do rio, quase na água que ele ainda é. Morrem muitas crianças por aqui. Há tantas crianças de 0 a 5 anos como adultos dos 25 aos 65. A vida é curta. A morte está muito próxima.

6h – A comunidade reúne-se na Igreja para rezar Laudes. Os maometanos já rezaram antes das quatro horas. Muitos cristãos rezaram a caminho do trabalho. Esta é a nossa hora de rezar pelo povo de Deus. Missão é milagre contínuo que só Deus pode fazer. Sem Ele não somos nada.

7h – Chega o cozinheiro e outros trabalhadores. Há muito capim para arrancar. o milho já cresce, mas é preciso plantar batata doce, semear feijão, limpar os caminhos. Os trabalhadores são jovens estudantes que precisam dinheiro para comprar cadernos e uniforme. Três horas de trabalho e a escola ao meio dia.

7,30h - Chegaram dois animadores de comunidades longínquas. Fizeram longo caminho de bicicleta. É preciso ouvi-los, analisar problemas, orientar rumos, preparar a lista dos sacramentos a conferir quando um dos padres “visitar” a sua região. A vida da Igreja depende muito do comportamento e da acção destes homens. Nós sempre seremos “visita”. Eles conhecem a vida do povo e falam a sua língua. Se forem bons, a Igreja cresce e o Evangelho irradia. Quando ele falham, a Igreja definha.

8,30h - Estou em Nataleia. Foi quase uma hora para fazer 13 quilómetros. A chuva grossa limpou a lama, mas os buracos são muitos. Descarregamos as tábuas para os bancos da Igreja. Quando tento estacionar o carro, a direcção está completamente solta. Se fosse no caminho, seria um desastre. Mas aconteceu ali, com o carro parado, junto de casa. Há milagres ou não há?

9h - Reunião do Conselho Pastoral: uma grande roda com 50 pessoas responsáveis pelos diversos serviços nas 31 comunidades: liturgia, catequese, justiça e paz, famílias etc. Começamos com uma hora de oração; para louvar a Deus e para vermos como eles fazem a liturgia dominical. É preciso melhorar as celebrações. Trazem novidades para nos alegrar, problemas a resolver, planos a decidir. Revemos as contas das comunidades. Muitos estão a melhorar as capelas mas a conta na paróquia está negativa. Como conseguir mais participação económica do povo?

11h – Chuva forte no telhado. Impossível falar. Pausa na reunião. Chuva é bênção, mas pode causar estragos. A Irmã Izolde sai para verificar se entrou água nalguma casa da Escola Família Agrícola. Nada de especial, mas é preciso desviar a água para mais longe das casas, senão minam os alicerces. Uma boa notícia: a comida está pronta.

12,30 – Voltamos à sala. É preciso preparar a próxima quaresma e verificar quem já fez seis anos de serviço. Esses devem ser substituídos: escolher candidatos, eleição nas comunidades para os novos tomarem de posse no dia de Pentecostes. Alguns já passaram do prazo mas não querem deixar o lugar para outros. Insistimos: Comunidade que não renova os ministérios está condenada à paralisia.

14h – É preciso sair da antes da chuva que se aproxima. Mas alguns ficam para falar com o padre.

15h – Improvisar uma solução para a encrenca do carro: um arame e uma tira de borracha são a solução provisória.

16h - Pausa para ir até à casa paroquial e arrumar os materiais da reunião.

17h – Visita ao rio Nataleia. A água subiu muito. Passa por cima dos pilares da velha ponte construída pelo P. Manuel Silva. O Padre José Alexandre tem dinheiro para a reconstruir. É pouco! Faremos meia ponte onde passarão pedestres, bicicletas e motos. Evitará que as crianças da escola tenham de dar uma volta de 4 quilómetros para irem à escola e mais quatro para voltarem.

18h – Está escuro. Hora de celebrar a Eucaristia.

19h – Jantar e conversa sobre a vida da Escola, da paróquia e dos planos futuros.

21h – Lanterna não mão para voltar à casa paroquial, ver as estrelas, e… dar uma olhada nas leituras da Missa do dia seguinte. Como é boa esta cama! Sonhei que estava a cair num barranco mas fiquei seguro numa pedra. Se não for Deus a segurar-nos, quem fica de pé?

P. Jerónimo Nunes

 

 

11. Comboio Ecuménico


Entrei no corredor e escolhi a melhor carruagem, a última, onde vão os revisores e seguranças. Sentei-me ao lado de dois jovens simpáticos, frente a um respeitável senhor, de religião muçulmana, sempre sorridente. Antes de começar a rolar, a carruagem encheu-se de gente conhecida e amiga. Estavam reunidas todas as condições para uma boa viagem

Mas, num comboio que quer o desenvolvimento, cabe sempre mais alguém. Na primeira paragem entrou o homem dos bigodes, carregando uma pá novinha em folha. A sua idade merecia um assento. Forçou a barra e conseguiu. Os vizinhos reclamaram, mas nem o revisor conseguiu arrancá-lo do lugar usurpado. Menos sorte teve a mamã, um filho às costas, outro na barriga. Os jovens disputaram a prioridade em altos brados “como se fossem donos do comboio” – disse o meu vizinho.

Foi-se enchendo o corredor mas sempre cabe mais. A cada paragem entravam sacos de cebola, alho, mandioca, feijão, amendoim, laranjas e bananas. E pessoas, claro. Estamos nas férias, os jovens querem passear, os pais carregam a família inteira para ver a avó.

Chegámos à terra das hortaliças. Meia hora de paragem dá para comprar montes de repolho, alface, inhame, tomates e tudo tem de caber neste comboio poderoso. Na cidade tudo é três vezes mais caro e temos de levar presentes para a família e para os vizinhos. E porque não levar para vender no mercado e economizar o bilhete?

Os habitantes do corredor já não cabiam. Mas era preciso dar passagem ao homem dos bilhetes, ao revisor, e ao vendedor de bebidas porque o calor aperta. Empurra para um lado, empurra para o outro, os do assento tinham de se comprimir e o meu vizinho foi-se encolhendo junto à janela, sem qualquer reclamação. Jovem simpático. Mas a minha consciência pesou quando encostou a mim a avó com um neto às costas. Abri caminho pelo corredor e fui até à casa de banho, cedendo o assento para a senhora que já tinha uma hora de empurrões, em pé. Aproveito para respirar fundo na plataforma de entrada. A paisagem é deliciosa: matas, plantações e as enormes pedras que mudam de feição à medida que o comboio avança.

Faltava a estação da cana de açúcar, boa para anemia, rins e fígado que aguentou cura de malária, além de matar a sede. Mas os mais anémicos estão em casa. É preciso levar para essas crianças de barriga inchada pela comida pouca. Funciona a catana velha. Corta-se tudo em pequenos pedaços e os molhos têm de caber por baixo do assento ou em cima das malas. Sempre cabe mais alguma coisa. E aquela galinha? Também está barata, não pode ficar!

O segurança deu conta de que a plataforma de entrada está a ficar entupida. Aqui é proibido viajar! Muito menos crianças. As portas já não fecham bem. E empurra-nos para o meio do calor. A esta hora, o homem das bebidas já não consegue corredor. Avança por cima do encosto dos assentos. Foram fabricados em tempo de ferro barato e aguentam bem o peso do malabarista. Eu é que já não sou malabarista e tenho de chegar ao meu assento. Os meus amigos incentivam: o senhor tem direito ao assento: obedecer ao segurança, lembrar a avó de que ela já descansou!

O meu vizinho da janela é que não aguenta mais ser comprimido. E aí vai ele: pés no assento e assento no encosto. Parece o rei em cima do trono. Não vê as montanhas de fora, mas admira a paisagem interna. O velho muçulmano sorri e aponta a pista de solução: precisávamos de dois comboios por dia!

Há só um e são férias. E a verdade é que chegámos à região seca, da mandioca barata, já atada em feixes. Enquanto a fila de carregadores enche um vagão com enormes sacos, brilham os olhos dos pequenos vendedores: dez meticais! Com dez meticais dá-se uma refeição à criançada toda. Onde cabe o feixe de mandioca? Por baixo dos joelhos, ou por cima dos sapatos. Já só falta uma hora. Aguenta-se tudo, a sorrir, contando anedotas!

 

 

Comboio dos pobres, comboio ecuménico. Une o Índico ao lago Niassa. Faz a delícia de todos os apeadeiros e estações: forma-se o mercado volante de petiscos, água, aguardente do vovô, refrescos, filmes violentos, produtos da terra ou importados da China, tudo o que der uns meticais para passar mais um dia. Em poucos minutos acaba-se o mercado, mas amanhã temos outro comboio.

P. Jerónimo Nunes

Missionário da Boa Nova


 

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